Luís Venâncio

Vice-Presidente ANEEB | Associação Nacional de Estudantes de Engenharia Biomédica

Uma abordagem sobre a Tecnologia em Saúde…

«Nos dias de hoje, a tecnologia influencia em todos os aspetos a sociedade moderna. Se analisarmos de uma forma ponderada, verificamos que não existe uma indústria que não tenha sido afetada pela revolução tecnológica, sendo que a área da saúde não é exceção. Assim, os avanços tecnológicos nesta área têm vindo a transformar diariamente a forma como os cuidados de saúde funcionam, bem como toda a estrutura e organização da área médica.

Os mais recentes desenvolvimentos nesta área têm tornado o cidadão protagonista da designada medicina preventiva, sendo esse, na nossa opinião, o rumo correto, já que só assim conseguiremos avançar de um modelo, desatualizado, de suporte à saúde, para um modelo de promoção da saúde. Posto isto, e definido o alvo que devemos almejar, temos que procurar quem consiga promover esta alteração e consolidar esta evolução: o Engenheiro Biomédico. Desta forma, só a partir de equipas multidisciplinares, onde incluímos não só Engenheiros Biomédicos, como Médicos, Enfermeiros, Farmacêuticos, e outros profissionais de saúde, é que conseguiremos melhorar o panorama do sistema de saúde em Portugal.

Para além disso, com os meios que dispomos atualmente, conseguimos recolher quantidades incalculáveis de dados que, bem organizados e bem estruturados, podem ser muito úteis para identificar determinados padrões em saúde e, desta forma, auxiliar não só os hospitais, como as demais infraestruturas médicas, a colocar em prática uma ideologia de prevenção.

Desta forma, a Engenharia Biomédica revela-se extremamente importante neste processo de alteração de paradigma. Desde a informatização da saúde, a processos de imagiologia mais exatos, até ao desenvolvimento de instrumentos cirúrgicos que conseguem realizar performances com uma minuciosidade espantosa. Estes são apenas algumas das áreas onde o Engenheiro Biomédico pode atuar para promover esta alteração.

Nos países nórdicos, como a Finlândia, a Noruega e a Dinamarca, esta alteração já se encontra em prática e devidamente implementada e enraizada nos seus sistemas de saúde e, por isso, apresentam-se como os casos de estudo de exemplo nesta vertente. Nestes países, o Engenheiro Biomédico desenrola um papel fundamental em ambiente hospitalar e o trabalho em equipa faz já parte do modus operandi. Por outro lado, acreditamos que Portugal ainda tem um longo caminho a percorrer no que diz respeito à inovação na área da saúde; no entanto, algumas alterações otimistas começam já a ocorrer. O futuro assemelha-se risonho para os profissionais de saúde, mas apenas se trabalharmos em equipa é que iremos conseguir estar na vanguarda na área da saúde.»

Farah Alimagham

Investigadora em Sensores Óticos e Nanotecnologia na Universidade de Cambridge; Graduate Research Assistant no Birck Nanotechnology Center da Universidade de Purdue (EUA);
Mestre em Micro e Nanotecnologias pela FCT-UNL.

Como a nanotecnologia tem um papel importante na medicina do futuro?

«Nanotecnologia aplicada à medicina, ou nanomedicina, é uma área altamente interdisciplinar que tem o potencial de envolver e revolucionar vários, ou mesmo todos, os ramos da medicina incluindo as técnicas de diagnóstico, métodos de imagiologia, drug delivery direcionada, produtos farmacêuticos, implantes biológicos e a engenharia de tecidos.  O objetivo principal da nanomedicina é desenvolver novos materiais e tecnologias que permitam detectar e tratar doenças de forma personalizada, direcionada, precisa, eficaz e duradoura, de forma a tornar a prática médica mais segura e menos intrusiva, melhorando assim a qualidade de vida dos pacientes.»

Que vantagens as novas tecnologias trazem aos futuros profissionais de saúde?

«As vantagens que as novas inovações tecnológicas trazem aos futuros profissionais de saúde são inúmeras. Um exemplo é a monitorização online e em tempo real de pacientes com certas condições médicas, o que permite não só monitorizar vários pacientes em simultâneo como também eliminar mão-de-obra intensiva, principalmente em casos em que é necessário recolher amostras e/ou efetuar medidas com regularidade. Para além disso, o desenvolvimento de técnicas de diagnóstico e tratamentos mais rápidos e eficazes têm a capacidade de poupar imenso tempo e trabalho aos profissionais de saúde.»

Que responsabilidades têm os jovens na melhoria dos cuidados de saúde?

«Os jovens têm como responsabilidades não só contribuir progressivamente para o desenvolvimento de novas tecnologias para aplicações médicas como também assegurar a tradução destas tecnologias do laboratório para o ambiente clínico de forma a chegar aos pacientes e contribuir beneficamente para a sociedade. Este é tipicamente um processo longo, caro e complexo que deverá ser considerado muito antecipadamente e que requer não só elevada eficácia terapêutica como também satisfazer simultaneamente os requisitos básicos de segurança, produção, regulatórios, éticos e capacidade de scale-up.»

 
Descobre mais sobre o trabalho desenvolvido por Farah juntamente com a Cambridge University em

Professor Doutor Manuel Paiva

Professor Jubilado pela Université Libre des Bruxelles (ULB); Ex-Diretor do Laboratório de Física Biomédica da ULB onde lecionou Física e Biofísica na Faculdade de Medicina; Participou em mais de 10 missões espaciais da NASA e da ESA.

Na opinião do Professor Manuel Paiva, que papel têm as inovações tecnológicas na medicina?

«Tanto no consultório do médico de família como no hospital, o paciente beneficia de inovações tecnológicas, incluindo os resultados de análises clínicas de um número cada vez maior de parâmetros. Os aparelhos que fornecem os resultados das análises evoluem rapidamente, o que exige a sua renovação frequente. Das inúmeras inovações tecnológicas recentes, a que maior impacto teve parece-me ser a imagiologia, em particular a tomografia computorizada, habitualmente designada por TAC. Os raios X permitem a obtenção de uma imagem tridimensional das estruturas internas do organismo e o médico pode ver, em três dimensões, o interior do corpo do paciente sem ter de praticar incisões. Godfrey Hounsfield (engenheiro eletrotécnico) e Allan Cormack (físico) receberam em 1979 o Prémio Nobel de Fisiologia ou Medicina pela descoberta da tomografia computorizada. A imagiologia por ressonância magnética ou IRM, permite também observar o interior do corpo humano, com a vantagem de não irradiar o paciente com raios X e visualizar melhor certos órgãos, como o cérebro.

É muito difícil prever a evolução das técnicas que os médicos utilizarão no futuro, mas assiste-se à personalização do tratamento, isto é, tendo em conta as características especificas do doente, o qual implicará, a longo prazo, a descodificação do genoma de cada um de nós, ou seja, o conhecimento da sequência dos vários milhares de milhões das quatro bases nucleotídicas do nosso ADN.»

Que vantagens o desenvolvimento tecnológico traz ao exercício da profissão do médico e como os engenheiros biomédicos fazem parte desse processo?

«Quando um paciente se dirige a um médico, a primeira pergunta que este lhe faz é: “de que é que se queixa?”. Estabelece-se então um diálogo que vai condicionar o pedido de análises e testes que utilizam aparelhos imaginados, em geral, por físicos ou engenheiros. Este primeiro contacto entre o paciente e o médico está a ser alterado pela utilização da internet e pelas tecnologias associadas à Inteligência Artificial. O paciente pode ir buscar nas redes sociais a tentativa para fazer ele mesmo um diagnóstico, o que é raramente do agrado dos médicos. Por outro lado, o acesso ao seu dossiê médico contribui para mudar a relação com os médicos, assim como a relação entre os médicos entre si. Se excetuarmos certos aspetos da psiquiatria, não creio que haja hoje em dia médicos que possam exercer eficazmente a profissão sem utilizarem tecnologias modernas.

Como o desenvolvimento tecnológico conduz a aparelhos cada vez mais sofisticados e os médicos têm raramente a formação científica e tecnológica que lhes permita compreender o seu funcionamento, a profissão de engenheiro biomédico desenvolve-se rapidamente. Até há pouco tempo, não existia uma tradição de ensino interdisciplinar na Europa Continental, devido às barreiras entre as Faculdades. Felizmente a situação está a mudar, mas é importante que elementos de base das ciências biomédicas façam parte do currículo universitário dos engenheiros biomédicos que vão também servir de interface entre  os engenheiros das empresas construtoras dos instrumentos e os profissionais no domínio da saúde.»

Como o desenvolvimento tecnológico da medicina é importante do ponto de vista de futuras missões espaciais em particular na colonização de outros planetas?

«Depois da Terra, o primeiro planeta a ser explorado pelo homem será Marte, e não é a falta de tecnologia no domínio da medicina que limitará a sua exploração. A primeira base permanente de humanos em Marte acontecerá lá para o fim deste século e a principal tecnologia utilizada será provavelmente ligada à telemedicina, já praticada no nosso planeta. O que necessita um estudo aprofundado é a adaptação do corpo humano a viver em permanência com a força da gravidade marciana que é só um terço da gravidade terrestre.»

Prof. Doutor António Vaz Carneiro

Médico Especialista em Medicina Interna, Nefrologia e Farmacologia Clínica; Professor Catedrático da FMUL; Investigador Clínico

Que papel têm as inovações tecnológicas na medicina?

«Ajudam a melhor diagnosticar, tratar e prognosticar. Quando bem testadas, as tecnologias constituem uma poderosa abordagem na prática clínica moderna.»

Que vantagens o desenvolvimento tecnológico traz ao exercício da profissão do médico e à melhoria dos cuidados de saúde?

«Melhora as qualidades do diagnóstico, através de desenvolvimento de meios auxiliares de diagnóstico, quer sejam analíticos quer de imagem. No campo terapêutico, os novos medicamentos são de qualidade elevada, devido a avaliação tecnológica avançada. O mesmo se pode dizer dos dispositivos médicos, cirurgias, etc. Finalmente, no campo da predição de risco, as tecnologias científicas permitem identificar e confirmar os factores de risco mais preditivos de doença em patologias variadas.»

Carla Maria Quintão Pereira

Coordenadora do Mestrado Integrado em Engenharia Biomédica na FCT NOVA

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Dada a utilidade da Engenharia Biomédica para a saúde, considera que neste ramo da Engenharia, as softskills serão mais relevantes que nas outras engenharias?

«Actualmente, possuir boas capacidades de comunicação, ser pró-activo e abarcar conhecimentos em diferentes áreas, são qualidades essenciais para se ter sucesso em qualquer profissão. Quando, como é o caso do Engenheiro Biomédico, se exige o contacto com interlocutores de diferentes formações; a proximidade com doentes; e a necessidade de agir em diversos cenários, uma boa formação no que se denomina por softskills é imprescindível.

Para se ser um Engº Biomédico completo é necessário: Um bom domínio da linguagem tanto oral como escrita e abarcar conhecimentos em diferentes áreas, uma vez que se espera que seja, muitas vezes, o elemento de ligação entre equipas constituídas por profissionais de diversas proveniências. Ter a sensibilidade e a conduta ética necessárias para lidar com doentes que se encontram, em alguns casos, em situações de debilidade. Ter presente que o seu saber deve estar, como em qualquer profissional de saúde, ao serviço da melhoria da qualidade de vida dos cidadãos.»

Tendo em conta o vasto programa de formação de um Engenheiro Biomédico, em que medida é que a sua intervenção na área da Saúde pode constituir uma vantagem para o seu avanço?

«A diversidade de áreas de formação dos Engenheiros Biomédicos dota-os da versatilidade, da capacidade de adaptação e da criatividade necessárias para encontrar respostas para os problemas que a área da saúde lhes propõe.

Os Engenheiros Biomédicos são, sem dúvida, peças fundamentais na Medicina actual. Com o crescente papel da tecnologia, é cada vez mais necessária a existência de profissionais com formação em engenharia, que garantam a qualidade dos equipamentos; ajudem na gestão de recursos; encontrem soluções tecnológicas adaptadas aos doentes; em suma, projectem, construam e apliquem ferramentas inovadoras na actividade clínica. Com o aumento da esperança de vida, aliada ao conceito de que saúde não implica apenas a ausência de doença, mas implica também garantir uma boa qualidade de vida aos cidadãos, é essencial que haja profissionais, como os Engenheiros Biomédicos, capazes de compreender os desafios colocados pela área da saúde e sugerir soluções à altura desses mesmos desafios.»

João Veloso

Diretor de curso do MIEB na Universidade de Aveiro

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Na opinião do Professor João Veloso, que papel têm as inovações tecnológicas na medicina? Que vantagens o desenvolvimento tecnológico traz ao exercício da profissão de médico e como os engenheiros biomédicos fazem parte desse processo?

«O aumento da qualidade de vida humana e da esperança média de vida, que se tem acentuado nas últimas décadas, foi fortemente impulsionado pelo grande esforço colocado na inovação tecnológica na área da engenharia biomédica, a qual, disponibiliza aos médicos ferramentas únicas que possibilitam a realização de diagnósticos de patologias em estado precoce e soluções terapêuticas eficazes para o seu combate. Para que esta inovação funcione é necessário envolver os diferentes atores da área da saúde e da engenharia, tendo em conta o caráter multi- e inter-disciplinar das áreas tecnológicas envolvidas. Uma consciência de partilha e de empenho entre médicos e engenheiros/biomédicos tem sido a chave para o sucesso na investigação, desenvolvimento e implementação destas soluções tecnológicas inovadoras, que em muito contribuem para a cura da doença ou para a sua mitigação.»